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O CONTRÁRIO DE CADA UMA DESTAS CERTEZAS EMPOEIRADAS NA ÚLTIMA GAVETA. O REFLEXO SÚTILMENTE ÉBRIO DO OUTRO LADO DO ESPELHO TRINCADO. A QUASE-CLAREZA NAQUELE SEGUNDO ANTERIOR AO SONO. UM GERÚNDIO,INDO, DESCOBRINDO,ENCONTRANDO-SE...

Amor meu


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- Postado por: _Dazinha Kubrick_ às 16h59
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Desaprendi em quarenta-e-oito horas o azul impar do
meu céu.
Reorganizei,pois, nas tonalidades pares que não
pertencem a mim,
Todo o doudo de ter-se paz.

[Foto por: Daisy Serena / Sto. Antonio do Pinhal]



- Postado por: _Dazinha Kubrick_ às 23h14
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TRATADO DOS IGNORANTES

 

Pois é, companheiros, o relógio correu teimoso, o outono desfolhou no instante despercebido. Ao abrir as cortinas não reconhecemos o lado de fora, tudo fez-se túrbido, ou nada fez-se, e somos o outro inventado.Desacordamos, quem sabe, do outro lado de um espelho fragmentado.E cá estamos a pagar pela consciência de ser, sete anos desgracentos porvir.Sobra-nos apenas a argúcia da tal liberdade, a lembrança de um entardecer na primavera.
Porque deste lado, felizes de fato, só os ignorantes.


 
[Daisy Serena – 09/10/09]

 

 



- Postado por: _Dazinha Kubrick_ às 22h41
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FRUTAS URBANAS

 

Que há no malabarismo destas frutas plásticas no asfalto, além do inefável gosto amargo de negrume e podridão?

O fatal ermo descolor em diminutos pés descalços. Tentar equilibrar nas palmas das mãos languidas e sujismundas, alguns miseráveis contos de réis.

 

Não há vermelhos vívidos, ou discrepância nas tonalidades azuis do céu. O sorriso inocente e largo perdeu-se em algum entardecer nos lábios de outrem. O gélido estrume de sentir-se adormecido nos jornais de ontem, faz-se epifania, pois no tremor doído de esquecidos ossos lembra-se, por fim, que ainda se é vivo.

 

[Daisy Serena – 07/10/09]



- Postado por: _Dazinha Kubrick_ às 22h56
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BREVE INSTANTE DE NÓS DOIS

 

 

Ela gesticulou com urgência, para que o efêmero instante não se perdesse entre os centímetros que separavam sua voz estridente, daqueles dóceis olhos a fitá-la curiosos.

Inábil regurgitou incessantemente sobre o intangível de ser-se, o ermo de estar em si, as rusgas fronte ao espelho.Um circunlóquio interminável de lamúrias, um breu que vinha de dentro para fora e perdia-se no meio

do caminho.

 

O alaranjado das dezoito horas soprou cálido pela velha persiana. Assim, após um longo trago, ele apagou jeitosamente o cigarro no cinzeiro imundo. Deu-lhe um beijo no canto dos olhos, destes que calam cigarras e tufões. E trouxe inesperada calmaria com um clic do abajur.

 

[Daisy Serena – 06/10/09]



- Postado por: _Dazinha Kubrick_ às 02h02
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NOTA DE UMA TARDE CHUVOSA

 

O céu anseia inquieto pelo odor da tempestade porvir, colorido em fúnebre escala.

Na mão de unhas roídas onde mantenho a força do indolente corpo meu, um maço surrado aconchega a última dose de nicotina comprada com suado vintém.

A primeira rajada de vento vem punir-me num uivo gélido entre o ranger doído de meus dentes.

Então a primeira gota a desprender-se solitária no túrbido dia, lavou-me o canto escondido dos dedos amarelados, como se sempre houvesse sido minha.

Esta tarde a gota foi o determinismo de mim.

 

[Daisy Serena – 01/10/09]



- Postado por: _Dazinha Kubrick_ às 23h53
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BIENVENUE PRIMAVERA

 

O primeiro botão primaveril despertou-me com um beijo caído da janela. Então, sorri às flores. Destes sorrisos meios sonolentos que não sabem direito a quê vieram. Mas sempre vem, junto com as cores que deliberadamente invadem-me a retina, tomam-me a sensação gélida despojada em meus lençóis, e deixam no lugar o aconchego de uma morna brisa.

 

O último rastro pungente de inverno escorre pela água fresca do chuveiro. Permito-me, pois, salgar os lábios finos e trêmulos, na despedida silenciosa destas lágrimas, que nem recordam-se mais as razões de ser. Como se o perfume das flores anulasse quaisquer sofrimentos.

 

A primeira manhã primaveril veio a meus lábios num gosto quente e forte de café torrado. E ao andar descalça pelo sol refletido no azulejo da sala, sabia bem, sem ter ouvido sequer um sussurro na cozinha, que a ponta mais doce do teu sorriso de orquídea aguardava-me à desabrochar suave bom dia.

 

[Daisy Serena – 26/09/09]



- Postado por: _Dazinha Kubrick_ às 00h17
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SOB AS ASAS DA BORBOLETA

 

Pus minha paz sob as asas de uma borboleta.

Em sua diminuta sombra a bater docilmente o turvo contraste de cores no asfalto.

Eu, absoluta em inescrupulosos temores,

não poder-me-ia colocar ao lado teu.

Enterrando, assim, em minha imensidão esta dúbia opacidade.

Sob as asas dolorosamente belas desta borboleta, despedi-me silenciosa da calmaria de outrora.

Guardei, pois, o que restou-me inóspito

no negrume de um casulo novo.

 

[Daisy Serena – 23/09]



- Postado por: _Dazinha Kubrick_ às 15h43
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O SACO PLÁSTICO

 

Havia, então, um saco plástico sobre o banco de cimento sujismundo e vazio. O saco e o banco. Os transeuntes ignoravam ambos, em seus passos certos e corridos, passos que firmavam tanto sobre coisa alguma, passos à lugares incertos.

 

Uma brisa chuvosa levantou as folhas secas esparramadas pela grama descuidada, junto a elas foi-se o saco plástico. Não tratava-se de um saco ornamental, que pudesse valer qualquer desprendimento do foco habitual. Mas a dança no céu cinzento das folhagens entre - passando pela única alça não arrebentada, desprendia olhares sem qualquer merecimento.

 

Em outra praça, com tantos outros bancos irrisórios, fumava um alguém qualquer. Gotas gélidas, enfim, tomavam para si todo o cenário, desfazendo a dança, colocando peso no saco vazio. Este em falsa epulência pousava forçoso, entre gotas a limpar-lhe a imundice.   Até repousar na ínfima brasa da guimba jogada ao solo.

 

 

[Daisy Serena – 20/09/09]



- Postado por: _Dazinha Kubrick_ às 19h37
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O BURACO DO PEITO MEU

 

No peito meu alojou-se, pois, um buraco. Destes onde repousa mansamente o breu. Não houve quaisquer pré-avisos, quando dei-me conta já estava ali, sugando vorazmente tudo que poder-se-ia haver em mim incólume.

Deixou no que se podia sentir e ver, o pejo de todo meu langor. Sem armários onde certamente esconder-me-ia. Exposta sem desvios a estes olhos negros - que talvez sejam verdes ou azuis - de cílios tão longos, fixos nas verdades que inventaram para mim.

 

O maldito buraco neste peito que não reconheço mais, canta árias em deboche a meus inábeis passos tortos. ‘Não há fuga de si’, diz-me em gargalhada muda. Então, com a ponta de um sorriso ébrio, invento com o breu teu, uma nova máscara para vestir-me.

 

[Daisy Serena – 19/09/09]

 

 



- Postado por: _Dazinha Kubrick_ às 17h29
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BREVE ENSAIO SOBRE A SOLIDÃO

 

 

Que a solidão é esse desgarramento doudo que tem-se de si mesmo.Descobrir-se solto no ermo instante cujos dedos deslizam sem conseguir atar qualquer parte do outro, pois aquilo que se deseja ter firme entrelaçado nos braços de veias saltadas vem de dentro para fora, intangível no que se diz real.

 

Que a solidão é o excesso de ar a entrar individualista pelas narinas pulsantes. Esconder-se na falsa ignorância do que não o rodeia, posto que a clareza dos fatos é feito mosca encardida, percebida apenas ao zumbir-lhe serenatas persistentes nos ouvidos, morta sem cerimônias em um único tapa.

 

[Daisy Serena – 16/09/09]



- Postado por: _Dazinha Kubrick_ às 23h11
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VOU

 

A caminhada é penosa, bem se sabe, vou então arrastando meus pés como se fossem joelhos calejados, vou pensando em ficar estática olhando para o que não se vê, mas continuo no gerúndio de ir sem nem espiar o que ficou para trás. Vou acompanhando a brisa que bagunça travessa meus cabelos já tão revoltos, vou porque me puxam pela mão, e eu quase posso sentir a pressão dos dedos nos meus dedos tão débeis, vou entre lágrimas e um sentimento tão estúpido que não me é possível exprimir. Vou porque no fim desta curva intransponível preciso acreditar que você estará lá, que serão teus os dedos a me firmar na escuridão, e a tirar deste meu eu tão fatigado toda imundice que juntei pelo caminho. Então, iremos os dois, num gerúndio novo, sem tantos pedregulhos a ferir-me os joelhos, iremos entre um sorrir e outro, descobrir enfim, o que se esconde além da curva.

 

[Daisy Serena – 15/09/09 ]

 

.Para meu senhorzinho, dono dos dedos a me guiar.



- Postado por: _Dazinha Kubrick_ às 16h06
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.PRIMAVERA.

Entre um cigarro e outro a desbotar-lhe os vastos bigodes, ansiava por urgente calmaria, tal qual folha de outono que desprende-se muda e rodopia solitária até suave pouso no asfalto. Porém, formosa e desinibida, floreia em cores a primavera. Intercalando nos intervalos dos longos tragos de nicotina perfumes excitantes.

Seus cansados pés surrados pelos anos, oprimidos nos sapatos de couro vagabundo, acompanhavam inquietos o samba batuqueado na mesa ao lado. Ele foragido dentre os pelos amarelados dos bigodes, alheio a própria movimentação, à musica, às cores, ao perfume.

Em um ínfimo momento de lucidez, buscou foco no que se via turvo pelos olhos sempre embriagados de cachaça. Os pensamentos soltos implodiam no álcool que em único gole escorria amargo pela boca seca. Então pedia para que enchessem-lhe o copo mais uma vez.

Os dedos imundos de unhas mal cortadas clamavam, enquanto jogateavam com o isqueiro, pela calmaria que não haver-se-ia de chegar, mas ainda restava-lhe um resquício árduo de esperança. Esta dizia que chegaria o momento de enfim voltar para sua senhora, e prometer-lhe com os joelhos no barro do canteiro, que já não havia motivos para enfadar-se com bebedeiras, então arrancaria num movimento rápido de navalha esta velha barba, mostrar-se-ia inteiro, sem muralhas onde esconder-se.

Mas a primavera irradiava ensolarada lá fora. Acariciou, assim sem jeito, o rosto marcado por pelos e rusgas, enquanto uma lágrima sóbria desprendia-se do canto de seus olhos apáticos. O garçom serviu-lhe com mais uma dose, e outro cigarro foi aceso em silêncio.



- Postado por: _Dazinha Kubrick_ às 00h02
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- MARIO E JOANA -

 

 

 

Mario acordara no azulejo gélido do que considerava uma sarjeta particular; o chão do banheiro. Sentia-se ainda ébrio, o que pareceu-lhe estranho já que passara a madrugada regurgitando até o que restara incólume de si mesmo. Entontecido juntou as garrafas de vodka largadas no corredor do apartamento, e teve a ligeira impressão de que este estava ziguezagueando, resolveu então não dar-se o trabalho de secar o álcool que brilhava fétido no chão, o sol da manhã encarregar-se-ia de tal infortúnio.

 

A noite havia sido de uma intensidade quase mágica, apesar de não lembrar-se absolutamente de nada que não fossem imagens turvas e uma melodia ensurdecedora, a sensação que perdurava depois nunca enganava-o, definitivamente houvera muita profundidade. Quando a cabeça resolvesse parar com a auto-aniquilação a qual se dedicava no momento, tinha certeza de que poder-se-ia tirar algo produtivo da experiência.

 

Experiência esta que repete-se quase diariamente, para talvez conseguir ocupar este vazio doudo que desacelera o peito, para evitar as contas que não cessam em chegar por debaixo da porta, para sentir-se de fato turvo e não ter de lidar com a nítida lucidez ao decorrer do dia. Sabia que algo irreparável fazia-lhe falta, mas desconhecia “o quê”, então, mandou tudo às favas na melodia da garrafa de vodka, bateu a porta sem olhar para trás e andou, andou, andou, ansiando que o anoitecer viesse prontamente beijar-lhe a nuca.

 

Joana lia um livro de folhas amareladas e cheiro típico de acaro que a fascinava. Estava ali sentada na cadeira da cozinha desde as seis horas da manhã, o único movimento que permitia-se fazer além dos olhos percorrendo a deliciosa leitura, era do braço levantando e abaixando no ritmo certo para guiar até seus lábios uma caneca de café após a outra, acreditava que este conjunto servia de combustível para o longo dia de trabalho no escritório onde é recepcionista.

 

A noite anterior havia sido tranqüila, como quase todas são; descansou o corpo na água quente da banheira, bebeu uma taça de vinho suave, e colocou um de seus filmes clássicos até que o sono a tomou por completo. Contudo, alguns dias sente-se solitária e ansiosa mesmo com tantos amigos ao redor, não consegue explicar, mas algo lhe falta. Uma impulsividade que não lhe é costumeira faz-se momentaneamente sua senhora dando-lhe idéias ousadas como viajar sem mapa ou direção em busca deste “seila-o-quê” incômodo. Mas logo convence-se de que não passam de insanidades tolas e juvenis.Dando-se conta do horário, levantou-se, fechou a porta com doce languidez e caminhou solta até o trabalho.

 

 

 

 Nesta manhã singularmente ensolarada todos resolveram que era uma boa hora para solucionar as pendências a pé, foi em uma dessas avenidas amontoadas de transeuntes que Mario e Joana trombaram os ombros por uma fração de segundos. Obviamente não deram-se conta que naquele imperceptível instante um invadiu o vazio inatingível do outro, um pertenceu ao calor que escorria na pele do outro, mudando fatalmente o rumo de ambos. Então afastaram-se em sentido contrario, no caminho e na vida, sem despedidas nem saudades.

 

No dia seguinte Mario acordara na velha cama de estrado rangente, depois de meses intermináveis sem sentir a maciez daquele colchão, pronto para enfrentar o terror que é encontrar-se lúcido. Do outro lado da cidade Joana rendia-se à juventude que tanto reprimira, sem mapa, direção ou arrependimentos.

 

[Daisy Serena – SJCampos]



- Postado por: _Dazinha Kubrick_ às 10h58
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-O INESPERADO-

 

 

 

Era alta e desengonçada, não sabia de que maneira manter-se estática em público sem causar desconfortáveis olhares ofensivos, devido o excesso de pernas. Nos dedos pardos um cigarro amassado pendia queimando até desprender-se solitário. Era um fim de tarde que ia do azul intenso a um laranja arroxeado, e a gélida brisa que pairava seca no ar arrepiava-lhe levemente os poucos fios no fim da nuca, assim, desenhando um sorrir discreto com o canto de seus carnudos lábios.

 

Dispôs-se a sair do aconchegante apartamento aquecido, pois não sabia lidar com a ansiedade angustiante que lhe causava ter de reprimir um desejo inquieto, e ela desejava ferozmente pãezinhos amanteigados. Então lá encontrava-se Roberta, com suas longuíssimas pernas desajeitadas na esquina da padaria, admirando inconscientemente com olhos opacos uma paisagem qualquer. Os dedos seguravam firme o saco onde estavam os desejos, e ela estava solta no mundo, na calçada desnivelada, e nela mesma.

 

Subitamente recobrara a realidade, como se sofresse de desperta narcolepsia, e pôs-se a andar de volta para casa. Na tentativa de diminuir a distância cortou o caminho por uma praça, a luz do poste era de uma tonalidade bege que dava ao ambiente uma sensação medonha. Enquanto dava passos apressados tentando enxergar com nitidez por onde passava, como um tapa sem aviso, entonteceu-se com a mórbida figura de um cão falecido sendo devorado às bicadas por dois grandes urubus.

 

De imediato quis dar as costas e fugir, em poucos instantes teria esquecido aquela imagem, podendo assim continuar em paz com a noite programada, os desejos permaneciam firmes nos dedos apáticos, mas as pernas soltas tornaram-se trêmulas em completa inércia. Os urubus cavucavam baixo o pelo alcançando órgãos que não mais pulsavam, os de Roberta em contrapartida palpitavam como nunca. Queria de forma desesperadora matar aqueles malditos bicudos, a cena enojava-a fazendo com que sua visão ficasse turva.

 

Queria dar um último afago no cão desconhecido, que merecia a paz de ser devorado apenas por larvas de forma digna, baixo a terra. Morto, provavelmente envergonhava-se da exposição a qual submeteram-lhe, este que já passara a vida tímido em olhos pidonhos sujeitando-se ao lixo jogado nas ruas, este que os impiedosos padres dizem não ter alma,  este que agora estava lá pagando por ser a escória da merda pisada pelo advogado no dia anterior, este servindo de alimento em praça pública onde nunca encontrara o que comer.

 

Roberta perdera o controle de seus pensamentos, mas os pés resistiam firmes no chão, as lágrimas amargavam-lhe as bochechas róseas, e os desejos afrouxavam-se naqueles dedos finos que ela já não sabia a qual corpo pertencia. O céu tornara-se homogêneo junto à cor dos pássaros como se tomasse partido naquela silenciosa disputa, ela já não tinha mais forças ou ansiedades inquietantes, apenas um vazio irrisório tomando-lhe todo o espaço.

 

Com olhos caídos deixou que seus desejos espalhassem-se pela grama rala. Vencida, finalmente deu meia-volta sabendo que não esquecer-se-ia do que havia visto. Naquela noite foi deitar-se cedo, após um banho demorado e quente, ela que nem sabia rezar fez uma prece inventada sob a luz da chama de uma vela negra, que ardeu a noite toda velando a festa dos urubus famintos. E não houve paz, nem doces sonhos.

 

[Daisy Serena -19/06/09 – São José dos Campos]



- Postado por: _Dazinha Kubrick_ às 22h56
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